Hoje, no mundo de hoje. Vivemos correndo contra o tempo, sufocados pela sensação de impotência, amedrontados com a latente possibilidade do fracasso. Vivemos correndo atrás da auto-realização nos múltiplos planos da vida, desde o amor, passando pela esfera da família e culminando no ápice da carreira profissional. Às vezes, nessa busca, nos fazemos surdos, mudos, cegos. Ávidos pelo sucesso, pela fama, pela glória, por vencermos diariamente os obstáculos dessa guerra. Que guerra? Guerra tola que travamos contra nós mesmos, com a justificativa que tudo e todos estão contra nós. Nós machucamos cotidianamente, nos mutilamos aos poucos. Perdemos a esperança, a recuperamos, nos erguemos cheios de rancores, de ódio, de raiva com os instrumentos possíveis. Pedras, Chicotes, Grilhões, Facões, Revólveres, Bombas. Assim, sem mais, sem menos, explodimos, enforcamos, assassinamos nessa tentativa selvesca da luta pela própria sobrevivência. Somos podres e corrosivos. Sentimos vontade de cuspir naqueles que pedem, que se humilham, que nos fazem sentir constrangidos, reduzidos a própria insignificância. A vontade de gritar alto nos toma: Xó, saí daqui seu verme, saí de perto de mim. Seu cheiro me dá ânsia, tua imagem é a derrota humana que eu expurgo em minhas orações. Malfazejo seja as misérias que te excretaram no mundo. É assim, privado da “liberdade” do ir e vir da obscura e harmoniosa existência, sem se importar que nos defrontamos com o abrupto choque da massa, do povo, da merda e do mijo, do lodo transparente do outro. Isso incomoda? Quanto, por quanto tempo nos sentimos inquietos? Uma moeda alivia, um prato de sopa, café com pão. Porra nenhuma. Nos sentimos mal. Por que? Pela presença tão próxima de transitarmos o mesmo espaço, no mesmo tempo desses tantos ‘destituídos’, pobres, coitados, famintos. Por querer ajudar e até ajudar mas saber que ele não vai deixar de existir. Sua fome. Seu ato insuportável de pedir. De nos tirar do conforto de nosso estado, por nos fazer pensar por uma fração de tempo que por mais que eu reclame de tudo desse mundo cão a minha vida é incomparavelmente melhor. Doí conviver por alguns segundos com esses que nem de longe habitam nossos sonhos. Mundo melhor? Que mundo melhor? Para quem o mundo melhor? Que tipo de mundo melhor? É possível? Para mim? Para você? Para esses, essas, aqueles? Quando? Como? O que fazer para?
O breve texto deixa transparecer um pouco da inconsistência de ser humano. O discurso é contraditório, é antitético e paradoxo. Graças a moral, a ética ou melhor a hipocrisia cultuada por esta ou por aquela sociedade somos adestrados a sentir pena. A ajudar ao próximo sem olhar a quem. Cristo. Belos ensinamentos. Porém no nosso íntimo, por mais esmolas e “caridade” não conseguimos disfarçar a perversão. O melhor para mim. E aos outros nem tanto. Natal. Roupas, brinquedos, alimentos, grandes campanhas comoventes. Todos querem ajudar, doar, proporcionar felicidade. Aqui, agora. E depois? Tudo na mesma? Voltamos no dia das crianças. E podemos dormir em paz. Começar o ano novo preenchidos com aquele sentimento de “fiz a minha parte”. Onde é que estou querendo chegar? Não sei. Eu não acredito em Papai Noel. E você, acredita? Então sou egoísta, individualista e mão-de-vaca também.
Mas de volta a atenção. Sim ‘essa solidariedade natalina’ é uma forma de dar atenção. Por mais que eu não concorde. Mas quero falar de outras formas de atenção. Essa que as pessoas a sua volta vivem reclamando. Conviver gira em torno da atenção que você dar e recebe do outro? Parece que sim. Quando um elo se rompe é por falta de atenção. Não se trata de gostar ou não gostar de dar atenção. É claro que é mais fácil receber do que dar. Inconscientemente damos e recebemos atenção. Um olhar, uma palavra, um afago, só por estar presente ali do lado da pessoa em silêncio, mumética já é atenção. Veja só as crianças. Quando elas percebem que estamos no mesmo ambiente que elas é a hora de chamar atenção, de querer atenção. É como se dissessem “Ei, me olha eu estou aqui”. Com os adultos não é diferente. Certamente alguém próximo a você fala mais alto, sem necessidade, para que todos não parem de prestar atenção na história chatérrima que ele (ela) estar a contar. Tem gente que adora ser o centro das atenções e para isso nem precisa sofrer da síndrome do ‘filho único’. É só reparar, na rua entre seus amigos e colegas, em casa com os familiares. No ponto de ônibus, na fila do banco sempre tem alguém reclamando atenção. E eu não estou falando de pedir informações, eu estou falando de contar tudo que se passa na vida a um completo desconhecido. E pior, crente abafando que o desconhecido se importa com a vida do narrador. Nos importamos? Sim. Não. Na maioria dos casos damos trela às pessoas sedentas por serem ouvidas. Por que? Por nos sentimos constrangidos em dizer: desculpa minha senhora (or) mas não estou interessado na sua vida! Quero é prova. Não só ouvimos, mas também falamos. Falamos de nossas vidas, situações parecidas com aquelas relatadas, dizemos entender, damos até conselho. Isso tem nome? Se não deve ter. Denomino: terapia social. Já pensou se não fosse esses momentos de desabafo, de atenção recíproca todos teriam que freqüentar psicólogos. Mas quem tem acesso a esse serviço? Você tem? Eu não. E sabe o que é pior, é não reconhecemos as funções terapêuticas do dar e receber atenção. Tocamos o pau na tia, no vô da barraquinha de frutas por desabafar conosco. Bem é verdade que não é todos os dias que acordamos com cara de divã. Mas o bacana dessa atividade é relaxar nos contextos mais estressantes. Como na rua, horário de pico, um engarrafamento infernal, uma fome desgraçada misturada com sede, o desodorante já venceu faz tempo estando você no momento fedendo e transpirando. E para piorar as coisas não estão dando certo no seu dia, fez uma péssima entrevista de trabalho, levou um pé na bunda do namorado, perdeu naquela prova que estava precisando passar, seus amigos ligaram cancelando a festinha de sexta a noite. Aí aparece uma simpática pessoa e começa a desabafar. Eu não vô entrar no conteúdo do desabafo, pois não posso fugir do tema. Por que as pessoas reclamam atenção? Também não sei. Mas sei que deve ser uma mistura de carência óbvio, com um toque de stress cotidiano das relações amorosas, profissionais e familiares. Aff, quer coisa mais estressante que família, época de natal então, brigam até para cortar o peru. Vejo lado positivo desse querer atenção, mas acredito que essa nossa dependência do outro poderia evitar tantas angustias. Para que se importar tanto? Certo, certo...”uma andorinha só não faz verão”. Mas estar só, por não se importar em dar e receber atenção é tão bom. Ninguém pegando no pé, ninguém dando opinião etc. Tá posso listar mil e uma vantagens mais não tem graça ser um naufrago nesse mar de humanos dependentes do outro.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Aff...quero Ibop!
Santa decadência...se não escrevo, ninguém olha ou comenta!^^
Falta tempo...fim de semestre não é sinônimo de alívio, mas deveria, no meu caso é só, é só correria...Mono, mono, lavêm a monografia...ah ela rima com monotonia, doce ilusão essa minha...
é mais e mais correria! Ah como eu queria, sombra e água fresca, ah eu terei apenas por oito dias!
Bolsista não tem férias, ganha pouco, ler muito, analisa, escreve um monte...aprendemos, nos divertimos, até bebemos uma cervejinha com trezentos 'redondinho'(ou será quadrado? - mas quebra muito galho!). As vezes atrasa, deixa agente no pau contando os trocados pra não se dar mal, mas ainda assim, driblamos os intempéries da construção tijolada de cada dia! Oh estrada árdua, ouvimos a histeria da TPM alheia, engolimos sapos mas também cuspimos farpas! Tudo se dá com cor e graça, já vi até gente chorar de tanto rir! Gente pedir 'pinico'- para sair! E eu?! Ah...as vezes perco batalhas para ganhar guerras...até agora poucas baixas e muita, muita experiência! Conviver é uma arte...
Falta tempo...fim de semestre não é sinônimo de alívio, mas deveria, no meu caso é só, é só correria...Mono, mono, lavêm a monografia...ah ela rima com monotonia, doce ilusão essa minha...
é mais e mais correria! Ah como eu queria, sombra e água fresca, ah eu terei apenas por oito dias!
Bolsista não tem férias, ganha pouco, ler muito, analisa, escreve um monte...aprendemos, nos divertimos, até bebemos uma cervejinha com trezentos 'redondinho'(ou será quadrado? - mas quebra muito galho!). As vezes atrasa, deixa agente no pau contando os trocados pra não se dar mal, mas ainda assim, driblamos os intempéries da construção tijolada de cada dia! Oh estrada árdua, ouvimos a histeria da TPM alheia, engolimos sapos mas também cuspimos farpas! Tudo se dá com cor e graça, já vi até gente chorar de tanto rir! Gente pedir 'pinico'- para sair! E eu?! Ah...as vezes perco batalhas para ganhar guerras...até agora poucas baixas e muita, muita experiência! Conviver é uma arte...
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Roda de Samba...
(Tentem cantar no embalo, para não perder o ritmo, se possível depois de ter consumido alguma substância alucinógena como: café, álcool e outras, que te deixe bastante eufórico(a), caso contrário, a canção não despertará a vontade de sair dançando, cantarolando, contagiando, ou muito pouco!Rs).
Ôh sapeca Iaiá
Sapeca, sapeca, sapeca (pausado e com eco no 'a' 'aaa',rs!)
Sapeca Iaiá!
Não sei mais se é mais Sapeca
ou se sapeca Iaiá!?
Sapeca daqui, sapeca de lá!
Oi,Iaiá... (Refrão)
(chora cavaco, pandeiro, surdo, mudo e viola,rs!)
Ôh sapeca Iaiá!
Quem vai ver ela sapecar?!
Eu não vô, tu vai lá!
Zonzo ei de voltar!
Lalaiá, lalalaiá,lá-lá-lá! (sub-refrão, o meu samba não existe sem essas sílabas,rs!)
Sapeca, a Sapeca da Iaiá!
Sapeca daqui, sapeca de lá!
Eita Iaiá!
Na roda de samba,
só dá,
Iaiá!
Não sei mais se é mais Sapeca
ou se sapeca Iaiá!?
Sapeca daqui, sapeca de lá!
Oi,Iaiá... (Refrão)
(para mim samba de roda que se presa tem que terminar redondo, sendo esta a função do refrão, fechando com chave-de-ouro, mesmo o conteúdo da canção sendo um safado trocadilho, típico do gênero musical! Sendo que sou leiga no assunto, me corrijam!).
Ôh sapeca Iaiá
Sapeca, sapeca, sapeca (pausado e com eco no 'a' 'aaa',rs!)
Sapeca Iaiá!
Não sei mais se é mais Sapeca
ou se sapeca Iaiá!?
Sapeca daqui, sapeca de lá!
Oi,Iaiá... (Refrão)
(chora cavaco, pandeiro, surdo, mudo e viola,rs!)
Ôh sapeca Iaiá!
Quem vai ver ela sapecar?!
Eu não vô, tu vai lá!
Zonzo ei de voltar!
Lalaiá, lalalaiá,lá-lá-lá! (sub-refrão, o meu samba não existe sem essas sílabas,rs!)
Sapeca, a Sapeca da Iaiá!
Sapeca daqui, sapeca de lá!
Eita Iaiá!
Na roda de samba,
só dá,
Iaiá!
Não sei mais se é mais Sapeca
ou se sapeca Iaiá!?
Sapeca daqui, sapeca de lá!
Oi,Iaiá... (Refrão)
(para mim samba de roda que se presa tem que terminar redondo, sendo esta a função do refrão, fechando com chave-de-ouro, mesmo o conteúdo da canção sendo um safado trocadilho, típico do gênero musical! Sendo que sou leiga no assunto, me corrijam!).
sábado, 7 de novembro de 2009
Interior do meu interior
Ah que saudade!
Que saudade é essa?
Me sinto uma retirante
sem me retirar
das terras que sair
já pensando em voltar.
Não que eu queira partir
partir é repartir
tudo que construir
até aqui.
A fartura disfarça
a minha feiúra
mas aos olhos dela
sempre serei aquela
que chafurdou na lama
do poço, do riacho
em secura
que de tempos em tempos
goteja uma gota de chuva.
Panela de barro, fogo de lenha,
milho na brasa, carne assada,
leite sugado na teta da vaca,
lobisomem, mula, ariranha e
jibóia...
Quanta estória!
Mas é do colo, cafuné,
cascudo e grito que
mais sinto saudade.
Minha mãe, minhas avós
minhas tias e primas,
mulheres de fibra
da pele bronzeada em
pino de meio dia
cada qual com sua cruz
mais pesada que pegar
em cabo de enxada.
Saudade da Porta, das 17 horas,
do café e da fofoca, da colcha de
fuxico cosida na rua.
Rua que é casa na casa que é rua!
Na ladeira, na esquina, nos bares e jardins,
língua vira navalha que corta e costura,
estampa e colori fazendo a vida significar.
Zum, Zum, Zum,
pancadaria,
corre, corre,
pinga escorre do balcão da venda,
foice, faca deslizam na mortadela.
Sino da igreja badala
Um boi com chocalho,
aculá passa...
Se foi a ladainha da Ave Maria.
Lua cheia aponta disputando o céu
com as estrelas...
Manel enrola um bode, traga, faz fumaça
ajeita as calças,
tira o chapé,
faz o sinal da cruz,
escarra o seu catarrar mais profundo
e se deita,
ronca, peida
procura por Zumira
se vira
já é dia
levanta:
“Para não deixar o sol
passar por cima da cabeça!”
Que saudade é essa?
Me sinto uma retirante
sem me retirar
das terras que sair
já pensando em voltar.
Não que eu queira partir
partir é repartir
tudo que construir
até aqui.
A fartura disfarça
a minha feiúra
mas aos olhos dela
sempre serei aquela
que chafurdou na lama
do poço, do riacho
em secura
que de tempos em tempos
goteja uma gota de chuva.
Panela de barro, fogo de lenha,
milho na brasa, carne assada,
leite sugado na teta da vaca,
lobisomem, mula, ariranha e
jibóia...
Quanta estória!
Mas é do colo, cafuné,
cascudo e grito que
mais sinto saudade.
Minha mãe, minhas avós
minhas tias e primas,
mulheres de fibra
da pele bronzeada em
pino de meio dia
cada qual com sua cruz
mais pesada que pegar
em cabo de enxada.
Saudade da Porta, das 17 horas,
do café e da fofoca, da colcha de
fuxico cosida na rua.
Rua que é casa na casa que é rua!
Na ladeira, na esquina, nos bares e jardins,
língua vira navalha que corta e costura,
estampa e colori fazendo a vida significar.
Zum, Zum, Zum,
pancadaria,
corre, corre,
pinga escorre do balcão da venda,
foice, faca deslizam na mortadela.
Sino da igreja badala
Um boi com chocalho,
aculá passa...
Se foi a ladainha da Ave Maria.
Lua cheia aponta disputando o céu
com as estrelas...
Manel enrola um bode, traga, faz fumaça
ajeita as calças,
tira o chapé,
faz o sinal da cruz,
escarra o seu catarrar mais profundo
e se deita,
ronca, peida
procura por Zumira
se vira
já é dia
levanta:
“Para não deixar o sol
passar por cima da cabeça!”
domingo, 1 de novembro de 2009
Um brinde ao dia dos finados!
Sexta-feira, fim de tarde...
João, Maria, José e Joana contam os segundos para o fim do expediente. Feriadão à vista, à prazo, com juros e sem juros . Pouco importa é o ano dos feriados!
João pergunta a Maria: é feriado de que mesmo?
Maria: São tantos nem sei!
José: Do funcionário público eu sei que não é, foi essa semana (ponto facultativo,urruuu!).
Joana: É dia de finados.
Maria, João e José fazem uma feição tristonha e melancólica.
Maria arrisca um suspiro profundo – Finados...Deus os tenha num bom lugar!
Tudo muito rápido, pois a alegria rompe o gélido ar da saleta apertada e revestida de madeira maciça, dividida pelos quatro.
João grita para José: 5,4,3,2,1...Finadoosss! Feriadãaooo!
Joana emenda: Vamos correr para o bar!
Maria: Vamos bebemorar!
Todos em coro: Um brinde ao dia dos finados!
Mais uma data comemorativa, um feriado que caí em uma segunda-feira! O que mais os vivos querem?
Brindar, na véspera e ao longo do dia destinado aos que se foram. Um brinde a vida dos que ainda não foram, e nem querem ir por enquanto!
Por mais que seja finados, por mais que tenhamos pessoas próximas que partiram dessa para melhor (lá ele, lá ela, vá lá saber!). A lembrança saudosa imbuída de uma tristeza melancólica insiste em nos atormentar, mas, porém, entretanto, todavia de maneira passageira. Como há de ser, pois por ser uma ‘lembrança’ por si só se auto-explica, sem delongas!
Uns choram, ascendem velas, rezam, oram, lavam túmulos, levam flores, ascendem incensos, removem os ossos, fazem romaria para visitar os sepulcros, assistem uma missa atrás da outra, pagam intenções para os mortos. Outros se reservam a respeitar crenças e sentimentos. Existem também os que brindam oras, um brinde aos finados! Uma coisa não impede a outra, uma vez que o ritual sagrado é cumprido, partimos para o profano ali mesmo no passeio do cemitério entre flores, velas e isopores recheados de latinhas e latões. Produtos de alta estação que logo são carimbados com a inflação devido o crescimento da demanda.
Tudo melhora quando São Pedro ouve nossas preces e nos presenteia com um feriadão ensolarado, ensolarado o suficiente para pegar um bronze na praia, sair com os amigos, curtir os afetos. Entre um brinde e outro acabamos esquecendo a nomenclatura do feriado e nos concentramos exclusivamente no ferido.
E os defuntos, ou melhor, os finados são lembrados entre um gole e outro, não mais com tristezas, mas com as lembranças boas que esses deixaram ao longo da passagem pela terra. A viúva, o viúvo, os filhos e demais parentes e amigos lembram e sorriem desse mal mais certo que todos são conscientes e aprendem a viver. Todos em paz com a morte, no dia convencionado para celebrar a morte. Enfim, um brinde a morte sem constrangimentos!
João, Maria, José e Joana contam os segundos para o fim do expediente. Feriadão à vista, à prazo, com juros e sem juros . Pouco importa é o ano dos feriados!
João pergunta a Maria: é feriado de que mesmo?
Maria: São tantos nem sei!
José: Do funcionário público eu sei que não é, foi essa semana (ponto facultativo,urruuu!).
Joana: É dia de finados.
Maria, João e José fazem uma feição tristonha e melancólica.
Maria arrisca um suspiro profundo – Finados...Deus os tenha num bom lugar!
Tudo muito rápido, pois a alegria rompe o gélido ar da saleta apertada e revestida de madeira maciça, dividida pelos quatro.
João grita para José: 5,4,3,2,1...Finadoosss! Feriadãaooo!
Joana emenda: Vamos correr para o bar!
Maria: Vamos bebemorar!
Todos em coro: Um brinde ao dia dos finados!
Mais uma data comemorativa, um feriado que caí em uma segunda-feira! O que mais os vivos querem?
Brindar, na véspera e ao longo do dia destinado aos que se foram. Um brinde a vida dos que ainda não foram, e nem querem ir por enquanto!
Por mais que seja finados, por mais que tenhamos pessoas próximas que partiram dessa para melhor (lá ele, lá ela, vá lá saber!). A lembrança saudosa imbuída de uma tristeza melancólica insiste em nos atormentar, mas, porém, entretanto, todavia de maneira passageira. Como há de ser, pois por ser uma ‘lembrança’ por si só se auto-explica, sem delongas!
Uns choram, ascendem velas, rezam, oram, lavam túmulos, levam flores, ascendem incensos, removem os ossos, fazem romaria para visitar os sepulcros, assistem uma missa atrás da outra, pagam intenções para os mortos. Outros se reservam a respeitar crenças e sentimentos. Existem também os que brindam oras, um brinde aos finados! Uma coisa não impede a outra, uma vez que o ritual sagrado é cumprido, partimos para o profano ali mesmo no passeio do cemitério entre flores, velas e isopores recheados de latinhas e latões. Produtos de alta estação que logo são carimbados com a inflação devido o crescimento da demanda.
Tudo melhora quando São Pedro ouve nossas preces e nos presenteia com um feriadão ensolarado, ensolarado o suficiente para pegar um bronze na praia, sair com os amigos, curtir os afetos. Entre um brinde e outro acabamos esquecendo a nomenclatura do feriado e nos concentramos exclusivamente no ferido.
E os defuntos, ou melhor, os finados são lembrados entre um gole e outro, não mais com tristezas, mas com as lembranças boas que esses deixaram ao longo da passagem pela terra. A viúva, o viúvo, os filhos e demais parentes e amigos lembram e sorriem desse mal mais certo que todos são conscientes e aprendem a viver. Todos em paz com a morte, no dia convencionado para celebrar a morte. Enfim, um brinde a morte sem constrangimentos!
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Sofhie Calle
Interpretando o e-mail de Sr. X á Sofhie.
Me posiciono como uma mulher de 20 anos que já amou e já se sentiu amada. Que como todas (quiçá todos) que já viveram a experiência de amar, sente, pensa e escreve sobre o tema. E frente ao desafio de interpretar algo que escreveram, me sinto parte da história.
Como em todo ato de interação, de sociabilidade, socialização e desdobramentos o amor requer uma troca. Antes disso, um compartilhamento. Por isso, me considero parte e capaz de interpretar essa história.
O momento de Sofhie e Sr. X é transcendental por se fazer sentido, por mim e por qualquer ser humano. Sentido no plano universal e universalizante, capaz de unir e compartilhar. Os cientistas se questionam se a cor que eu vejo é mesma que os outros vêem. Questionamento cabível para os sentimentos. O amor que sinto não deve ser igual ao sentido pelo ser que amo, mesmo quando se sente, ouve e diz ser um amor recíproco. Eis a especificidade do amor, do amar e ser amada. Eis porque concebemos as ‘n’ formas de amor e de amar. Diz-se que o amor de mães para com os filhos é (in)condicional, diz-se que a recíproca não é verdadeira, diz-se que os amantes são mais apaixonados que os (e)namorados. Diz-se muito mais. O dizer é um olhar frente à multiplicidade de olhares, são as suposições, impressões, individuais ou compartilhadas.
Os sentimentos são ao mesmo tempo compartilhados e específicos. Se é que existe alguma forma de defini-los e determiná-los esta é a experiência de cada um. A experiência sentida de cada um. Esta, por sua vez, é compartilhada de imediato com o ‘ser que se ama’ , ou com os seres que se profere o amor. Tal compartilhar pode ser consciente ou não, entenda ‘consciência’ como sinônimo de reciprocidade. Por saber dessa dimensão dual do amor, Sofhie a expandiu, ou melhor, dividiu o e-mail se Sr. X com 107 mulheres. E agora a dissemina, mais e mais ao expor o resultado de tal experiência. Nos instigando a querer interpretá-la também.
Um exercício que farei agora e que outras mulheres devem ter feito ao ter contato com a obra. Insisto no caráter dual uno e múltiplo, específico e universal do amor, do amar e ser amada. Porque assim como a dor, o eventual ódio, vazio e qualquer outro sentimento desperto com o termino de um relacionamento (por razões diversas) é passível de ser sentido por todos, estendido e compartilhado a todos. O que independo de sexo, gênero, credo, condição social e financeira, etnia, idade, estado mental e corporal, cultura pertencente. É o que mais humano possuímos, os sentimentos. Seja de que forma estes foram, são e serão internalizados e externalizados para outrens.
Amamos nos sonhos, a sós (platonicamente), aos nossos familiares, amigos e tantos desconhecidos que casualmente amamos e iremos amar. Na mesma proporção também sofremos, nos iludimos e odiamos quem um dia juramos ter amado. A diferença é que o amor é constante e o desamor (ou desencanto) é passageiro.
Como bons telespectadores de filmes hollywoodianos e novelas globais somos persuadidos pelo lirismo dos românticos, somos levados e embriagados pelo heroísmo, cavalheirismo do amor (o mocinho da história) e o vilanismo do anti-herói o desamor ( desencanto, ou falta de amor, ou qualquer tipo de decepção nesse campo). Pois é, dessa rasteira reflexão como entrar no corpo do e-mail de Sr X? Qual será minha posição.
Pelo pouco que entende Sofhie estava interessada em captar o olhar, o prisma profissional de cada mulher que interpretou sua carta. Mas como dissociar isso do mar de experiências que cada mulher profissional já vivenciou e sentiu? Para mim, isso é impossível e creio que Sofhie não teria tal intenção tão empobrecedora. Meu espírito ainda não é muito desenvolvido para o entendimento da(s) arte (s). Mas creio que Sofhie tentou deixar sua arte mais interessante ao enquadramento dos diferentes olhares profissionais. E o foi para mim que pretendo ser ‘uma cientista social’, ver a visão de uma advogado encaixando Sr X em artigos x,y,z que previa a punição do ato (rompimento da relação), foi no mínimo insensato. Me perguntei, como assim, desde de quando um sentimento ou falta desse, ou meios utilizados para se obter um fim requer ‘leis’, ‘punição’, ‘ indenização’!? Isso é insano! Creio que meu espanto não é mais pela falta de trato com as ciências jurídicas, nem por querer sociologizar a coisa, é mais por me colocar no lugar de Sofhie e Sr X, independente do título. Então isso me leva a pensar que Sofhie foi além da arte, foi sagaz ao tentar mesclar o campo subjetivo do amor com a posição de cada mulher no mundo profissional. Não pude notar ao longo da exposição, talvez não estivesse lá nem explícito, nem implícito o fato de Sofhie não ter dissociado toda complexidade do universo das mulheres modernas. Ou seja, mulheres que possuem identidades ditas fragmentadas, compartilhadas, multifacetadas. No decorrer da vida cotidiana são (ou estão em busca) profissionais de sucesso, fiéis aos ditames da moda, mães, esposas, militantes - estereótipos ideais, ou não, são homossexuais, amantes, solteiras por opção, profissionais do sexo avessas as padronizações do universo social que estão inseridas. Mulheres que transitam no mesmo espaço e tempo (mesmo que não estejam ajustados são justapostos, ou seja, as diferenças geracionais e de padrões culturais, ex. oriente/ocidente) levando-se em conta a globalização e seus fluxos de informações.
O exposto acima me faz indagar (e como toda forma de indagação é uma suposição que dar margem para contestações) que Sr X pode ter findado com Sofhie devido à imersão da mesma no mundo do trabalho? Simplória esta indagação! O que estou tentando dizer é como a esfera do trabalho e as escolhas profissionais enquadram a personalidade ao ponto de se abdicar de sentimentos, ou melhor, direcionam os passos a serem dados na vida amorosa e pessoal (ter filhos, se casar etc.). No melhor, como a esfera do trabalho impacta a vida sentimental e relacional das mulheres. Dito de outra forma, como as ‘mulheres modernas’ se vêem e agem no decorrer de seus relacionamentos (de ordem amorosa ou não)?
Será que bastou às mulheres serem enquadradas como ‘modernas’ para que suas relações sentimentais, valores e visões de mundo acompanhassem as transformações sociais dos séculos corrente e anterior? Por que as relações amorosas hoje são tão líquidas (a lá Zygmunt Bauman) e passageiras? Por que algumas de nós (jovens mulheres) ainda se predem a ‘velhos’ dilemas como casar e ter filhos, e antes disso para não fugir do tema, se prendem ao amor!? Ops, agora me fiz insensível! Não, não é um conclame contra o amor. Em muito é a vida, o mais pessoal da vida que gira em torno do amor, do amar e ser amada. E das conseqüências dessa vida embriagada de amor, o reflexo dessas conseqüências são igualmente e até mais construtoras de nossas vidas.
Pois bem, vamos ao texto (e-mail de Sr X), sem expansão sociológica, antropológica, pois já a fiz até aqui. Veja, antes de qualquer coisa me identifico com Sr. X. Dar um ponto final em uma relação não é nada confortável. Se você é quem decide terminar é porque tem consciência que o seu gostar pelo outro não é tão grande, igual ou que vai sentir o mesmo que o outro sente por você no desenrolar da relação. Se não por falta de amor pelo outro, pode ser por excesso de amor próprio, necessário para dar um fim a uma relação que já não faz bem. De qualquer forma dentre a gama de causas e motivos, o eminente ‘desequilíbrio’ é notório. Ao meu ver (que pode não ser o seu!).
Destaquei então algumas frases marcantes do discurso de Sr. X:
Primeiro ele explicita seu momento, sua crise existencial, sua “angústia terrível”. Por quê? Para mim o motivo não importou muito, nem incitou raiva para com Sr. X. O fato dele “querer buscar novos horizontes” é totalmente concebível. Em muito me sinto assim, incapaz de me relacionar, de amar apenas uma pessoa. Culpa da ruptura de valores, das relações líquidas, de preferir a ‘liberdade’ a ‘solidão’. Parafraseando Tribalistas “Eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também”. É dual, é contraditório, abrir mão da estabilidade, da fidelidade e ainda assim, buscar o amor e ser amada. Ou isso é um contra-senso, ou a modernidade abriu campo para o anseio pós-moderno de ‘reinventar o amor’ a lá Cazuza e Seixas. Então, não posso censurar Sr. X, seu relacionamento com Sofhie é o que chamamos de ‘aberto’, ele tem outras três e ela tem o “B., R.,...”. Ambos estão quites neste aspecto. Mas, Sr X justifica como não conseguiu seguir as “regras”, condições impostas por Sofhie, por isso, se auto-culpabilizou em sua reflexão, recaindo em uma crise existencial. Poxa, por esse viés ele foi muito generoso consigo mesmo e quis passar tal imagem para Sofhie, afinal é um rompimento.
Sobre o mesmo ponto, eis o momento da ruptura: as imposições de Sofhie! Sofhie tentou enquadrar Sr X em uma lógica de relacionamento ultrapassado, não mais compatível com a vivência amorosa de ambos. Então Sofhie não seria a vítima da história, nem a algoz, pois viu, ou encontrou em Sr X a reciprocidade amorosa. Não sendo, por isso, insensato da parte de Sofhie reclamar exclusividade. Intrigante é reclamar exclusividade advinda apenas dele, e não dela, se ela se permitia ver os seus outros. Lembrei de outra musiquinha ‘depois de você os outros são os outros e só’ de Kid Abelha. Isso, Sr X era muito para Sofhie, ao ponto desta ser ‘vítima’ das próprias regras, ou melhor, o feitiço caiu contra a feiticeira.
Quanta crueldade da minha parte, pobre Sofhie é apenas uma mulher do mundo moderno (ou pós-moderno!). Sofhie é agente de seu próprio processo, não é mais ‘objeto’, ou não se deixa usar como objeto. Mas, esse rótulo de ‘moderna’ esconde a face de nossas interiorizações psicológicas e sociais do papel da mulher (papel da mulher? Discurso feminista ultrapassado e nada pós-moderno, ver O mundo das mulheres de Alain Touraine, 2007). A imagem de que a mulher tem um papel e ocupa um lugar determinado pela ideologia dominante (machista) é diluída, ou tentamos diluí-la diariamente, no mundo do trabalho, da família, dos relacionamentos amorosos. Em suma, assumimos o que queremos ser, somos e agimos como melhor nos convém. Sofhie, então, optou por amar Sr X, ou pelo menos, o fez pensar assim ao reclamar exclusividade. Vai ver que Sofhie queria testá-lo, ou medir (se é que isso é possível) a intensidade e a longevidade do amor de Sr. X. Se sim, sou sua fã, mas creio que não. Sofhie caiu na armadilha (ou amarras tradicionais) do amor romântico, fiel, exclusivo e estável. Totalmente contrário ao modo de vida de Sr X, homem, independente do título de moderno que desde os tempos da caverna prefere quantidade à qualidade. Dessa forma, não ia tardar, para Sr X não resistiria muito a ‘natureza de seu ser’. Aff, odeio tal visão, mais determinista do que evolucionista, de ver os homens como estagnados pó se escravizarem aos ‘anseios instintivos’. Isso não é regra, mas Sr X, não é exceção. Pelo menos Sofhie tenta acompanhar o ritmo do seu tempo, UAU – Quão feminista isso! Aiaiai. Só não posso me tornar reacionária, jamé,rs!
Gostei de outra passagem do e-mail, uma que Sr X confessa: “achei que a escrita seria um remédio...que meu ‘desassossego’ se dissolveria nela para encontrar você”. Nesse trecho o achei fantástico! Se expôs ao extremo. Muitas vezes tenho a escrita como meu divã, na falta de amigos, ou de um desabafo improferível a outros que não a mim mesma, escrevo. Isso é típico de escritores, ou de pseudo-escritores, como eu (piada).
Ao longo do discurso é notável que sua auto-reflexão é uma tentativa de sensibilizar Sofhie, mostrando toda sua vulnerabilidade. Se o foi, foi uma boa estratégia, mas não funcionaria comigo por muito tempo. Se Sofhie realmente o amou, pode ter sido um conforto. Por isso, ponto para Sr X, rs. Manipular, ou tentar manipular o sentimento alheio é uma válvula de escape para atingir o auto-conforto. Fazer o outro acreditar que você penou para tomar uma decisão cabal diminui o sentimento de culpa. É uma atitude cruel para com o outro, ou não, isso é uma questão de ponto de vista. Vária também em relação ao outro em questão às vezes o fora é tão prenunciado, mas o cego de amor abre a boca e diz “eu sei que você não me ama, mas eu quero continuar com você!”, paciência! Chame de frieza, de requinte de crueldade, eu chamo, o quão honesto é esse ser sincero capaz de dizer ‘acabou, adeus’. Mas em termos de fim de relacionamento, quando o ponto final é meu, também opto pela ‘auto-depreciação ‘eu não presto’, ‘você é maravilhoso’, ‘eu é que não presto’, diminui o impacto, mas é igualmente cruel,pois o cego/cega de amor ouve tais depreciações como um insulto. Se xingar, se depreciar é ferir moralmente o ser que ama, pois o ser amado é um toten endeusado e cultuado, um ser sagrado ( a lá Durkheim). Ou seja, minha tática é falha, uma vez que a imagem e os sentimentos não se alteram, não vô ser vista com maus olhos, conseqüentemente não diminuirei a dor do fora.
Segue Sr X com sua verborragia, apela para o amor eterno “nunca deixarei de amar você...esse amor...jamais morrerá” (Arrá, você também já disse isso néh, hehe). Não só, para Sr X o amor é recíproco, Sofhie o ama igualmente “todo amor que sentimos um pelo outro”. Ah , isso o “obriga a ser honesto”. E atinge o clímax da sinceridade e tudo que “houve entre nós (eles) permanecerá único”. Te lindo. Se Sofhie sentiu a ‘sinceridade’ dessas palavras, a intenção de Sr X se realizou. Isto é, seu sentimento de culpa se diluiu com a conformidade de Sofhie. Digno de uma salva de palmas. Se não fosse pela corrente hipocrisia de Sr X em dizer em pleno termino, em plena penúltima frase “gostaria que as coisas tivessem tomado um rumo diferente”. Uau, gostaria tanto que terminou por e-mail, uma graça o Sr X (mas, no mundo das relações virtuais é natural começos e términos por MSN, Orkut, e-mail etals, não devemos crucificá-lo por isso!). Sr X não se dar por satisfeito antes de disparar o tiro de misericórdia “CUIDE DE VOCÊ”. É assim que ele termina o e-mail e a relação. Dane-se Sr X! Agora falo como uma mulher histérica e traída, embora este não tenha sido o caso, rs.
A última frase me remete dizer que Sr X é extremamente perverso. Cuidar de você a priori significa duas coisas: primeiro que Sofhie sofreria com o termino da relação e estaria muito frágil por isso; segundo que, uma vez que, Sofhie se cuida, cura eventualmente a dor que Sr a causou, e conseqüentemente diminui a culpa de Sr X por tê-la feito sofrer. Pensamento lógico, causa-conseqüência, encaixadinho e questionável. Prefiro ser metodologicamente marxiana e ver além da aparência, que essência existe por trás do ‘cuide de você’!? Veja, quanto a primeira proposição, o termino é tido como fatal para Sofhie, lhe trará sofrimento dor, desespero. Ah, visãozinha estereotipada da ‘mulher como sexo frágil’, que acredito não ser o caso de Sofhie, abalada sim, frágil nunca (se é que ela se abalou!). E quanto segunda proposição, nada mais, nada menos que uma subestimação da capacidade de superação feminina. Sr X, mostrou-se ‘canalha’, ‘sacaninha’ apostando na fragilidade de Sofhie e no estímulo a ‘recuperação’ da mesma, ao proferir o ‘cuide-se’. Um terceira vertente surge, ele pode ter sido sincero, amou e inocentemente se sentiu amado. Por isso, é humano querer que Sofhie se cuide. Afinal, quem ama fica feliz com a felicidade do ser amado (é o que dizem, os românticos!).
Aff, isso me leva a crer, que tanto da parte de Sr X como de Sofhie estes rótulos de ‘modernos’ e ‘pós-modernos’ ainda estão presos a divisão de gênero homens/mulheres. Dicotomia preconceituosa, discriminatória refletida em atitudes e pensamentos sobre os relacionamentos entre pessoas de sexo diferentes. Em relação aos homossexuais, bissexuais transexuais parece que a barreira da dicotomização dos sexos em muito já se diluiu, uma vez que a relação tende a ser mais horizontalizada. Porém é sabido, que heteros e homos lutam contra os entraves do olhar dominante que pende para retroalimentar as padronizações sócio-culturais, segregando minorias e permeando injustiças contra os que são e querem ser reconhecidos como diferentes. Mudar mentalidades vai além da mudança de valores, instituir leis condiciona a mudança de habitus, porém conter a cólera do olhar fuminante contra o outro que foge as regras (da moral e bons costumes das instituições familiares, religiosas, políticas, jurídicas e outras) pactuadas, requer no mínimo uma transgressão. Transgredir o aqui e o agora, chocar ao invés de conscientizar, ou conscientizar chocando, para assim reconhecer o outro igualmente na sua diferença (a lá Boaventura Sousa Santos). Sr X chocou?! Sofhie chocou?! Eu choquei!? Fui além, tentei, agrade, convença, persuadiga ou não.
Contudo, conseguir escrever isso tudo, porque me sinto parte do processo. Sou uma atriz moderna, pós-moderna que lido com atores igualmente rotulados. Atores que também lidam com dilemas antigos, presentes e futuros. Tensões, rupturas e reconstruções são parte dos sentimentos, constitutores das relações amorosas, sociais e que transgridem a história, o tempo e o espaço ao modo de nosso olhar e resignificação do universo simbólico que estamos inseridas (os). Sofhie e Sr X são parte de mim e se fazem sentidos, compartilhados e externalizados no meu opinar sobre a experiência deles.
Escrito em 11/10/09, digitado em 23/10/09. Referência principal, o e-mail de Sr X, só li uma das 107 cartas da exposição de Sofhie.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Feixe de idéias
A luz que lançastes sobre a treva
Recairá sobre teus olhos
Cegaraciará todos
Tu e todos
Ninguém escaparciará
Por mais olhos fechem
Lentes escondam os
Nada basta, nada socorreraciá
Os homens pedem, os Deuses os dão
Não é castigo, é graça
Não é vingança, é vitória
Não há dor, há risos consternados
Finalmente tudo
Tudo que sonhastes
Vivenciarás
Adeus aos sonhos
Adeus a ilusão
Celebrarás a realidade
Viva, viva, viva
Morta,morta,morta
Isso bastara-lhe-as.
Recairá sobre teus olhos
Cegaraciará todos
Tu e todos
Ninguém escaparciará
Por mais olhos fechem
Lentes escondam os
Nada basta, nada socorreraciá
Os homens pedem, os Deuses os dão
Não é castigo, é graça
Não é vingança, é vitória
Não há dor, há risos consternados
Finalmente tudo
Tudo que sonhastes
Vivenciarás
Adeus aos sonhos
Adeus a ilusão
Celebrarás a realidade
Viva, viva, viva
Morta,morta,morta
Isso bastara-lhe-as.
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