terça-feira, 27 de abril de 2010

Dos Tempos 1.


João Jorge é um caso antigo, foi rápido, passageiro. Desses que nos pegam de surpresa. Nos conhecemos na antiga Estação de Trem, aquela que ficava lá no centro da cidade. Hoje não existe mais, ou melhor, existe a transformaram num museu de antiguidades. Eu estava atrasada, sempre atrasada para variar. Corria em disparada em direção a Plataforma “C” para pegar o trem para Zona Sul. Não sei como, com toda a pressa ouvi uma voz grave que lembrava a do locutor de rádio-novela Aroldo Andrade, por quem todas as moças da minha idade se derramavam de amor. A voz perguntou ao engraxate: - esta é a Plataforma ‘C’? O engraxate respondeu: - ‘C’ de coração, de carinhoso e de timão. O moço não entendeu, nem eu. O moço o interpelou: - como, ‘C’ de timão? E o engraxate disse: - sim, timão! Corintias do meu coração! Eu ouvi o diálogo e me surpreende com a resposta, olhei para trás e os dois estavam rindo. O moço parecia surpreso e encabulado. Deu tempo continuar correndo e pegar o trem. Para minha surpresa o moço perdido na plataforma pegou o mesmo trem que eu e ainda sentou do meu lado. Eu estava agoniada devido ao atraso e pensando em um monte de bobagens. Mas assim que ele sentou do meu lado foi inevitável não rir ao lembrar da resposta do engraxate ‘ “C” de timão’. Também foi inevitável não reparar naquele broto do meu lado. Primeiro porque gostei do cheiro da colônia que ele usava, lembrava capim-cidreira com um toque cítrico de limão. Depois por tudo, ele era um verdadeiro pão: alto, esbelto, cabelo castanho claro, nem moreno, nem pálido, muito menos amarelo desbotado, seu penteado lembrava o de Elvis e a barba feita enaltecia sua pele de bêbe. Estava usando uma calça jeans rasgada, blusa 3/4 xadrez de botão, e é claro não podia faltar a jaqueta de couro preto, que era moda. Seu sorriso não me saia da memória, olhei longe e suspirei profundamente, como se eu não estivesse ali. Não sei se ele percebeu, o mundo parou mesmo foi quando ele me perguntou as horas. Estranho, pois ele portava um lindo relógio de pulso. Mas eu fingi que não vi, tentei ser natural, olhei para o braço e disse com a minha voz mais doce “nove e meia”. Isso, foi só isso! Mas, mesmo muito “the flash” nossos olhares se cruzaram. Eu gelei, meu coração foi a mil. - Mel, os olhos dele são arredondados e mel. Blueblue...ai como ele se parece com o Erasmo Carlos! Depois que ele ouviu o horário exclamou “droga, tô atrasado”. Eu disse “eu também”. Ele se voltou para mim e disparou aquele sorriso de Apolo “hum que feliz coincidência”. Muda, paralisada, fiquei. Eu queria falar algo, mas o nervoso não me permitia. Então, ele não mais esperou por resposta e continuou “eu vou descer no Monumento e você?”. Gaguejei, “ê, eu, eu vou descer um ponto depois, na Viana Corrêa”. Se fez um silêncio e ele disse “ah, tem uma sorveteria famosa por ali né?”. “éh” foi o que eu disse bastante descabriada. Ele continuou “esta um calor, a cidade esta cada dia mais vertical, quente, sufocante. Quer tomar um sorvete comigo?”. Antes que eu respondesse ele se antecipou “não vou tomar muito o seu tempo, nos refrescamos e voltamos a rotina, também não posso demorar!”(mera estratégia de convencimento). Olhei para o relógio já eram 9:45 e eu tinha uma entrevista as 10:00 horas. A sorveteria ficava próxima ao Centro Empresarial, mas em 15 minutos mal dava para eu chegar lá. Tomar um sorvete com o lindo e charmoso desconhecido, ou ir à entrevista de emprego? Óh céus que mundo cruel, pensei comigo. Ele pode ser o amor da minha vida, ele pode ser só mais um ‘cafa’ também. E o emprego?! Secretária de um escritório de arquitetura. Me agrada, só a parte artística. Aiaiai. Ele interrompeu meus pensamentos “e então, vamos tomar o sorvete!”. Mordi o meu lábio inferior, apertei as mãos uma na outra, olhei para o teto do trem, respirei e num rompante respondi “tá bom, vamos tomar um sorvete”. Foi maravilhoso, não tomamos apenas um sorvete, a conversa estava tão boa que tomamos três. O tempo passava e entre risos nem nos dávamos conta. Ali, fiquei conhecendo o João o encantador João Jorge. Seu papo era envolvente e tínhamos vários gostos em comum: rock’n roll, lambreta, cinema, independência, sorvete! Uma empatia só. Perdi a entrevista de emprego e ganhei um broto. Um mês de amor e de luar. Rápido e intenso. Terminamos mas não tem como esquecê-lo, o tenho gravado em mim. Minha primeira tatuagem um coração com as iniciais ‘JJ’ dentro. Ai João Jorge você bem que podia ter deixado uma marca menos ‘brega e cafona’ em mim. Quem faz isso nos tempos de hoje? No meu tempo também era moda, era uma prova de amor. Não me arrependo o encontro com o João me fez crer que era possível correr menos e rir mais. Me desliguei da ‘rotina’ e do ‘moral e politicamente correto’. Me senti livre, amante e amada. Descompliquei a vida naquele encontro singular!

Por Duda Duarte.

terça-feira, 2 de março de 2010

Dos Tempos...

Só no aniversário de 80 anos foi que ele se deu conta. Definitivamente se deu conta. Mas a muito que não sentia mais pressa. Para quê? Quando jovem fora ansioso e onde chegará assim? Seu coração apertou tanto que foi parar na mesa de cirurgia cardíaca. Seu presente de 55 anos foram duas pontes de safena. A ansiedade da juventude, a pressa para vencer na vida, prover a família, dar o melhor para esposa e filhos. De que serviu tanta preocupação? Todos cresceram, todos formaram, todos construíram família. E sua mulher se dedica aos netos e aos almoços de domingos ensolarados. Porque nos dias de chuva ninguém arreda o pé de casa. Então a vida se resumiu a isso? E para quê? Sim, não fora tudo sacrifício. Sempre gostei de acordar cedo e pagar as contas em dias. Eles cresceram sem dar muito trabalho, nisso Maria sempre foi um esmero. Eles se foram. No início tive ciúmes, mas entendi. Para mim foi mais fácil que para ela. O desapego só vem com o tempo, com o tempo e com a confiança. Eu confio neles e eles nos admiram por isso. Então eu tive tudo. Missão cumprida. Seria fácil se fosse assim. Marcinho, o mais velho, outro dia veio me queixar da Bia que esta mocinha e pretende viajar com o namorado no feriadão. Ele me perguntou o que fazer?! Eu ri, e disse: meu caro os tempos são outros, abra a mente antes de sofrer. Com a sua irmã Joana, não lembra, foi um Deus nos acudas. Mas aí de mim que sempre fui um homem à frente do meu tempo. E ainda tive que aguentar os desmaios de sua mãe e todo aquele 'blá,blá,blá' de pecado. Eu pensei, cá com meus botões, vá à merda a falação se ela a ama que seja. Eu também a amo. E olha que para o tempo isso deu muito pano para manga. Mas se alguém não tomar a iniciativa tudo continua como estar.Larga a mão de ser turrão, você de bico aqui e minha neta de bico acolá. Deixa estar, só avisa para não esquecer de usar camisinha. E deixa estar. Rir comigo mesmo sentado na poltrona do vovô, só observando a movimentação. Mas depois veio aquela angústia. Ah, ter que esperar pelos designos do tempo é um horror. Eu também queria viajar. Quem sabe partir de vez. Para o além mundo. Quem sabe Maria vem comigo. Para que ela ficaria aqui, essa vida já é sem sal, imagina só sem mim. Ela morreria. Ai droga. Parece que eu não aprendi. Já tenho mais de 80 e continuo assim, roendo unha, ansioso de dar gastura. Ai existência, só me resta esperar. Mas foda mesmo é que agora me sinto o retrato daquela música de Raul Seixas "Sentado numa poltrona com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar". Exceto pelos dentes, há muito que joguei a chapa fora. Risos.

Por João Jorge.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Peremptório?

O que essa palavra significa?

Dizer que algo é peremptório, segundo o Aurélio, é ser "decisivo", ou "termitente". Sendo classificada gramaticalmente como adjetivo, que por sua vez, pode ser entendido como palavra que qualifica o nome(substantivo). Isso segundo qualquer gramática vagabunda e uma conhecedora superficial do assunto.

Se peremptório é "decisivo", eis o meu sonho de estado, como sujeito que sou. Me tornar um nome qualificado adjetivadamente. Ser alguém munido de algo, sendo assim, para tanto preciso do intermédio dos verbos, tais como: "querer", "poder", "conseguir", "ser". Este último me atraí, ser um ser peremptório. DECISIVO. Assim eu queimo etapas e evito "querer", "conseguir" e de quebra, caso o "ser" com o "poder". Imagine, totalmente fatal. Sem mais, nem menos. DECISIVO.

Agora se o peremptório pender para o "termitente", eu sinto por ter ido consultar mais uma vez o oráculo. O que resultou em decepção. 1º O meu oráculo não merece esse nome, pois sua visão é limitada; 2º "termitente" não é difícil de deduzir para em seguida assimilar. Se "intermitente" é algo "não contínuo" que sofre interrupções, então "termitente" é algo finito, cabal. Se for isso mesmo, esse segundo sentido anula a minha feição em relação ao primeiro. Ser decisivo sim, ser termitente não. A não ser que a decisão seja um começo e não um fim. Dar para começar antes de terminar, dar para terminar antes de começar. Dar para ser peremptório sendo decisivo e termitente ao mesmo tempo.

Tudo isso porque essa palavra apareceu sem contexto em minha mente. Sem lembrança de ter sido dita ou ouvida. Despertou curiosidade, uma vez descoberta foi facilmente enquadrada, o sentido revelado logo se fez sentir. Me identifiquei com ela pela completa falta de intimidade. Me reconheci ao desconhecê-la. PEREMPTÓRIO, será que ainda estou falando da palavra.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Budapeste

"A poesia de verdade desaba por dentro...feito o amor"

A frase dita por Kriska a Kósta.

Como todo escritor ele queria flores sobre suas obras. De um convencimento e pedantismo sem tamanho. O que o torna inconsistente, contraditoriamente inconsistente.Na cena anterior Kósta vai ao lançamento de seu próprio livro. Um livro de poesias. Quer a atenção que de fato deveria ser sua e não do poeta húngaro que publicara o livro. Na cena que se segue, justifica as transgressões dizendo não concordar com o espetáculo que gira em torno do lançamento de um livro. Mas, o que transparece é que queria as glórias para si.

Em cenas anteriores é questionado pelo poeta sobre o fato de se esconder nas sombras. Uma mente brilhante que não quer dinheiro nem fama, essa era sua utopia! Ele queria ser um escritor destinando suas palavras a serviço da humanidade. Tal qual outro poeta húngaro, esse épico de um lirismo sem igual.

E quanto a inconsistência, ele não admitia que sua obra não passasse de um "So, So"! Que se traduz por "Assim, Assim". E que entendo como mais ou menos, que para o contexto fica melhor meio a meio. Ele era um estrangeiro versando poesias em húngaro, tentando ser um 'estabelecido', mas como bem disse Nobert Elias, não passava, até então, de um 'out-side'. Era um estranho de si mesmo. Brigando contra seu próprio ser. Isso me remete as primeiras questões filosóficas "Ser ou não ser eis a questão. E se sou quem sou?". Um tanto humano e biográfico algo que fica evidente no fim do filme. Que bom que o personagem não deu margem para a pergunta "De onde vim e para onde vou?". Embora ele tenha ido e vindo, vindo e ido.

O fator biográfico então fica evidente no final do filme. O autor do livro que gerou o filme aparece e pede um autógrafo a Kósta que estava de volta a Budapeste, agora com visto permanente. É o ápice da glória de Kósta.

"Um livro é como um contato íntimo entre duas pessoas" (Kriska).

José Costa confessa na última cena que Kriska sabia que Budapeste, o livro concebido e assinado por ele, só foi fecundado graças ao amor que ele sente por ela.

"Krisca sabia que agora eu lia o livro no qual eu escrevia" (Kósta Jsoze, José Costa).

Se ainda não assistiu vale a pena assistir. Tem bastante expressão simbólica. Essa última frase então, é digna de ser lida e visualizada.

sábado, 24 de outubro de 2009

Sofhie Calle




Interpretando o e-mail de Sr. X á Sofhie.

Me posiciono como uma mulher de 20 anos que já amou e já se sentiu amada. Que como todas (quiçá todos) que já viveram a experiência de amar, sente, pensa e escreve sobre o tema. E frente ao desafio de interpretar algo que escreveram, me sinto parte da história.
Como em todo ato de interação, de sociabilidade, socialização e desdobramentos o amor requer uma troca. Antes disso, um compartilhamento. Por isso, me considero parte e capaz de interpretar essa história.

O momento de Sofhie e Sr. X é transcendental por se fazer sentido, por mim e por qualquer ser humano. Sentido no plano universal e universalizante, capaz de unir e compartilhar. Os cientistas se questionam se a cor que eu vejo é mesma que os outros vêem. Questionamento cabível para os sentimentos. O amor que sinto não deve ser igual ao sentido pelo ser que amo, mesmo quando se sente, ouve e diz ser um amor recíproco. Eis a especificidade do amor, do amar e ser amada. Eis porque concebemos as ‘n’ formas de amor e de amar. Diz-se que o amor de mães para com os filhos é (in)condicional, diz-se que a recíproca não é verdadeira, diz-se que os amantes são mais apaixonados que os (e)namorados. Diz-se muito mais. O dizer é um olhar frente à multiplicidade de olhares, são as suposições, impressões, individuais ou compartilhadas.

Os sentimentos são ao mesmo tempo compartilhados e específicos. Se é que existe alguma forma de defini-los e determiná-los esta é a experiência de cada um. A experiência sentida de cada um. Esta, por sua vez, é compartilhada de imediato com o ‘ser que se ama’ , ou com os seres que se profere o amor. Tal compartilhar pode ser consciente ou não, entenda ‘consciência’ como sinônimo de reciprocidade. Por saber dessa dimensão dual do amor, Sofhie a expandiu, ou melhor, dividiu o e-mail se Sr. X com 107 mulheres. E agora a dissemina, mais e mais ao expor o resultado de tal experiência. Nos instigando a querer interpretá-la também.

Um exercício que farei agora e que outras mulheres devem ter feito ao ter contato com a obra. Insisto no caráter dual uno e múltiplo, específico e universal do amor, do amar e ser amada. Porque assim como a dor, o eventual ódio, vazio e qualquer outro sentimento desperto com o termino de um relacionamento (por razões diversas) é passível de ser sentido por todos, estendido e compartilhado a todos. O que independo de sexo, gênero, credo, condição social e financeira, etnia, idade, estado mental e corporal, cultura pertencente. É o que mais humano possuímos, os sentimentos. Seja de que forma estes foram, são e serão internalizados e externalizados para outrens.

Amamos nos sonhos, a sós (platonicamente), aos nossos familiares, amigos e tantos desconhecidos que casualmente amamos e iremos amar. Na mesma proporção também sofremos, nos iludimos e odiamos quem um dia juramos ter amado. A diferença é que o amor é constante e o desamor (ou desencanto) é passageiro.

Como bons telespectadores de filmes hollywoodianos e novelas globais somos persuadidos pelo lirismo dos românticos, somos levados e embriagados pelo heroísmo, cavalheirismo do amor (o mocinho da história) e o vilanismo do anti-herói o desamor ( desencanto, ou falta de amor, ou qualquer tipo de decepção nesse campo). Pois é, dessa rasteira reflexão como entrar no corpo do e-mail de Sr X? Qual será minha posição.

Pelo pouco que entendi Sofhie estava interessada em captar o olhar, o prisma profissional de cada mulher que interpretou sua carta. Mas como dissociar isso do mar de experiências que cada mulher profissional já vivenciou e sentiu? Para mim, isso é impossível e creio que Sofhie não teria tal intenção tão empobrecedora. Meu espírito ainda não é muito desenvolvido para o entendimento da(s) arte (s). Mas creio que Sofhie tentou deixar sua arte mais interessante ao enquadramento dos diferentes olhares profissionais. E o foi para mim que pretendo ser ‘uma cientista social’, ver a visão de uma advogado encaixando Sr X em artigos x,y,z que previa a punição do ato (rompimento da relação), foi no mínimo insensato. Me perguntei, como assim, desde de quando um sentimento ou falta desse, ou meios utilizados para se obter um fim requer ‘leis’, ‘punição’, ‘ indenização’!? Isso é insano! Creio que meu espanto não é mais pela falta de trato com as ciências jurídicas, nem por querer sociologizar a coisa, é mais por me colocar no lugar de Sofhie e Sr X, independente do título. Então isso me leva a pensar que Sofhie foi além da arte, foi sagaz ao tentar mesclar o campo subjetivo do amor com a posição de cada mulher no mundo profissional. Não pude notar ao longo da exposição, talvez não estivesse lá nem explícito, nem implícito o fato de Sofhie não ter dissociado toda complexidade do universo das mulheres modernas. Ou seja, mulheres que possuem identidades ditas fragmentadas, compartilhadas, multifacetadas. No decorrer da vida cotidiana são (ou estão em busca) profissionais de sucesso, fiéis aos ditames da moda, mães, esposas, militantes - estereótipos ideais, ou não, são homossexuais, amantes, solteiras por opção, profissionais do sexo avessas as padronizações do universo social que estão inseridas. Mulheres que transitam no mesmo espaço e tempo (mesmo que não estejam ajustados são justapostos, ou seja, as diferenças geracionais e de padrões culturais, ex. oriente/ocidente) levando-se em conta a globalização e seus fluxos de informações.

O exposto acima me faz indagar (e como toda forma de indagação é uma suposição que dá margem para contestações) que Sr X pode ter findado com Sofhie devido à imersão da mesma no mundo do trabalho? Simplória esta indagação! O que estou tentando dizer é como a esfera do trabalho e as escolhas profissionais enquadram a personalidade ao ponto de se abdicar de sentimentos, ou melhor, direcionam os passos a serem dados na vida amorosa e pessoal (ter filhos, se casar etc.). No melhor, como a esfera do trabalho impacta a vida sentimental e relacional das mulheres. Dito de outra forma, como as ‘mulheres modernas’ se vêem e agem no decorrer de seus relacionamentos (de ordem amorosa ou não)?

Será que bastou às mulheres serem enquadradas como ‘modernas’ para que suas relações sentimentais, valores e visões de mundo acompanhassem as transformações sociais dos séculos corrente e anterior? Por que as relações amorosas hoje são tão líquidas (a lá Zygmunt Bauman) e passageiras? Por que algumas de nós (jovens mulheres) ainda se predem a ‘velhos’ dilemas como casar e ter filhos, e antes disso para não fugir do tema, se prendem ao amor!? Ops, agora me fiz insensível! Não, não é um conclame contra o amor. Em muito é a vida, o mais pessoal da vida que gira em torno do amor, do amar e ser amada. E das conseqüências dessa vida embriagada de amor, o reflexo dessas conseqüências são igualmente e até mais construtoras de nossas vidas.

Pois bem, vamos ao texto (e-mail de Sr X), sem expansão sociológica, antropológica, pois já a fiz até aqui. Veja, antes de qualquer coisa me identifico com Sr. X. Dar um ponto final em uma relação não é nada confortável. Se você é quem decide terminar é porque tem consciência que o seu gostar pelo outro não é tão grande, igual ou que vai sentir o mesmo que o outro sente por você no desenrolar da relação. Se não por falta de amor pelo outro, pode ser por excesso de amor próprio, necessário para dar um fim a uma relação que já não faz bem. De qualquer forma dentre a gama de causas e motivos, o eminente ‘desequilíbrio’ é notório. Ao meu ver (que pode não ser o seu!).

Destaquei então algumas frases marcantes do discurso de Sr. X:

Primeiro ele explicita seu momento, sua crise existencial, sua “angústia terrível”. Por quê? Para mim o motivo não importou muito, nem incitou raiva para com Sr. X. O fato dele “querer buscar novos horizontes” é totalmente concebível. Em muito me sinto assim, incapaz de me relacionar, de amar apenas uma pessoa. Culpa da ruptura de valores, das relações líquidas, de preferir a ‘liberdade’ a ‘solidão’. Parafraseando Tribalistas “Eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também”. É dual, é contraditório, abrir mão da estabilidade, da fidelidade e ainda assim, buscar o amor e ser amada. Ou isso é um contra-senso, ou a modernidade abriu campo para o anseio pós-moderno de ‘reinventar o amor’ a lá Cazuza e Seixas. Então, não posso censurar Sr. X, seu relacionamento com Sofhie é o que chamamos de ‘aberto’, ele tem outras três e ela tem o “B., R.,...”. Ambos estão quites neste aspecto. Mas, Sr X justifica como não conseguiu seguir as “regras”, condições impostas por Sofhie, por isso, se auto-culpabilizou em sua reflexão, recaindo em uma crise existencial. Poxa, por esse viés ele foi muito generoso consigo mesmo e quis passar tal imagem para Sofhie, afinal é um rompimento.

Sobre o mesmo ponto, eis o momento da ruptura: as imposições de Sofhie! Sofhie tentou enquadrar Sr X em uma lógica de relacionamento ultrapassado, não mais compatível com a vivência amorosa de ambos. Então Sofhie não seria a vítima da história, nem a algoz, pois viu, ou encontrou em Sr X a reciprocidade amorosa. Não sendo, por isso, insensato da parte de Sofhie reclamar exclusividade. Intrigante é reclamar exclusividade advinda apenas dele, e não dela, se ela se permitia ver os seus outros. Lembrei de outra musiquinha ‘depois de você os outros são os outros e só’ de Kid Abelha. Isso, Sr X era muito para Sofhie, ao ponto desta ser ‘vítima’ das próprias regras, ou melhor, o feitiço caiu contra a feiticeira.

Quanta crueldade da minha parte, pobre Sofhie é apenas uma mulher do mundo moderno (ou pós-moderno!). Sofhie é agente de seu próprio processo, não é mais ‘objeto’, ou não se deixa usar como objeto. Mas, esse rótulo de ‘moderna’ esconde a face de nossas interiorizações psicológicas e sociais do papel da mulher (papel da mulher? Discurso feminista ultrapassado e nada pós-moderno, ver O mundo das mulheres de Alain Touraine, 2007). A imagem de que a mulher tem um papel e ocupa um lugar determinado pela ideologia dominante (machista) é diluída, ou tentamos diluí-la diariamente, no mundo do trabalho, da família, dos relacionamentos amorosos. Em suma, assumimos o que queremos ser, somos e agimos como melhor nos convém. Sofhie, então, optou por amar Sr X, ou pelo menos, o fez pensar assim ao reclamar exclusividade. Vai ver que Sofhie queria testá-lo, ou medir (se é que isso é possível) a intensidade e a longevidade do amor de Sr. X. Se sim, sou sua fã, mas creio que não. Sofhie caiu na armadilha (ou amarras tradicionais) do amor romântico, fiel, exclusivo e estável. Totalmente contrário ao modo de vida de Sr X, homem, independente do título de moderno que desde os tempos da caverna prefere quantidade à qualidade. Dessa forma, não ia tardar, para Sr X não resistiria muito a ‘natureza de seu ser’. Aff, odeio tal visão, mais determinista do que evolucionista, de ver os homens como estagnados por se escravizarem aos ‘anseios instintivos’. Isso não é regra, mas Sr X, não é exceção. Pelo menos Sofhie tenta acompanhar o ritmo do seu tempo, UAU – Quão feminista isso! Aiaiai. Só não posso me tornar reacionária, jamé,rs!

Gostei de outra passagem do e-mail, uma que Sr X confessa: “achei que a escrita seria um remédio...que meu ‘desassossego’ se dissolveria nela para encontrar você”. Nesse trecho o achei fantástico! Se expôs ao extremo. Muitas vezes tenho a escrita como meu divã, na falta de amigos, ou de um desabafo improferível a outros que não a mim mesma, escrevo. Isso é típico de escritores, ou de pseudo-escritores, como eu (piada).

Ao longo do discurso é notável que sua auto-reflexão é uma tentativa de sensibilizar Sofhie, mostrando toda sua vulnerabilidade. Se o foi, foi uma boa estratégia, mas não funcionaria comigo por muito tempo. Se Sofhie realmente o amou, pode ter sido um conforto. Por isso, ponto para Sr X, rs. Manipular, ou tentar manipular o sentimento alheio é uma válvula de escape para atingir o auto-conforto. Fazer o outro acreditar que você penou para tomar uma decisão cabal diminui o sentimento de culpa. É uma atitude cruel para com o outro, ou não, isso é uma questão de ponto de vista. Varia também em relação ao outro em questão às vezes o fora é tão prenunciado, mas o cego de amor abre a boca e diz “eu sei que você não me ama, mas eu quero continuar com você!”, paciência! Chame de frieza, de requinte de crueldade, eu chamo, o quão honesto é esse ser sincero capaz de dizer ‘acabou, adeus’. Mas em termos de fim de relacionamento, quando o ponto final é meu, também opto pela ‘auto-depreciação ‘eu não presto’, ‘você é maravilhoso’, ‘eu é que não presto’, diminui o impacto, mas é igualmente cruel,pois o cego/cega de amor ouve tais depreciações como um insulto. Se xingar, se depreciar é ferir moralmente o ser que ama, pois o ser amado é um toten endeusado e cultuado, um ser sagrado ( a lá Durkheim). Ou seja, minha tática é falha, uma vez que a imagem e os sentimentos não se alteram, não vô ser vista com maus olhos, conseqüentemente não diminuirei a dor do fora.

Segue Sr X com sua verborragia, apela para o amor eterno “nunca deixarei de amar você...esse amor...jamais morrerá” (Arrá, você também já disse isso néh, hehe). Não só, para Sr X o amor é recíproco, Sofhie o ama igualmente “todo amor que sentimos um pelo outro”. Ah , isso o “obriga a ser honesto”. E atinge o clímax da sinceridade e tudo que “houve entre nós (eles) permanecerá único”. Te lindo. Se Sofhie sentiu a ‘sinceridade’ dessas palavras, a intenção de Sr X se realizou. Isto é, seu sentimento de culpa se diluiu com a conformidade de Sofhie. Digno de uma salva de palmas. Se não fosse pela corrente hipocrisia de Sr X em dizer em pleno termino, em plena penúltima frase “gostaria que as coisas tivessem tomado um rumo diferente”. Uau, gostaria tanto que terminou por e-mail, uma graça o Sr X (mas, no mundo das relações virtuais é natural começos e términos por MSN, Orkut, e-mail etals, não devemos crucificá-lo por isso!). Sr X não se dar por satisfeito antes de disparar o tiro de misericórdia “CUIDE DE VOCÊ”. É assim que ele termina o e-mail e a relação. Dane-se Sr X! Agora falo como uma mulher histérica e traída, embora este não tenha sido o caso, rs.

A última frase me remete dizer que Sr X é extremamente perverso. Cuidar de você a priori significa duas coisas: primeiro que Sofhie sofreria com o termino da relação e estaria muito frágil por isso; segundo que, uma vez que, Sofhie se cuida, cura eventualmente a dor que Sr a causou, e conseqüentemente diminui a culpa de Sr X por tê-la feito sofrer. Pensamento lógico, causa-conseqüência, encaixadinho e questionável. Prefiro ser metodologicamente marxiana e ver além da aparência, que essência existe por trás do ‘cuide de você’!? Veja, quanto a primeira proposição, o termino é tido como fatal para Sofhie, lhe trará sofrimento dor, desespero. Ah, visãozinha estereotipada da ‘mulher como sexo frágil’, que acredito não ser o caso de Sofhie, abalada sim, frágil nunca (se é que ela se abalou!). E quanto segunda proposição, nada mais, nada menos que uma subestimação da capacidade de superação feminina. Sr X, mostrou-se ‘canalha’, ‘sacaninha’ apostando na fragilidade de Sofhie e no estímulo a ‘recuperação’ da mesma, ao proferir o ‘cuide-se’. Um terceira vertente surge, ele pode ter sido sincero, amou e inocentemente se sentiu amado. Por isso, é humano querer que Sofhie se cuide. Afinal, quem ama fica feliz com a felicidade do ser amado (é o que dizem, os românticos!).

Aff, isso me leva a crer, que tanto da parte de Sr X como de Sofhie estes rótulos de ‘modernos’ e ‘pós-modernos’ ainda estão presos a divisão de gênero homens/mulheres. Dicotomia preconceituosa, discriminatória refletida em atitudes e pensamentos sobre os relacionamentos entre pessoas de sexo diferentes. Em relação aos homossexuais, bissexuais transexuais parece que a barreira da dicotomização dos sexos em muito já se diluiu, uma vez que a relação tende a ser mais horizontalizada. Porém é sabido, que heteros e homos lutam contra os entraves do olhar dominante que pende para retroalimentar as padronizações sócio-culturais, segregando minorias e permeando injustiças contra os que são e querem ser reconhecidos como diferentes. Mudar mentalidades vai além da mudança de valores, instituir leis condiciona a mudança de habitus, porém conter a cólera do olhar fuminante contra o outro que foge as regras (da moral e bons costumes das instituições familiares, religiosas, políticas, jurídicas e outras) pactuadas, requer no mínimo uma transgressão. Transgredir o aqui e o agora, chocar ao invés de conscientizar, ou conscientizar chocando, para assim reconhecer o outro igualmente na sua diferença (a lá Boaventura Sousa Santos). Sr X chocou?! Sofhie chocou?! Eu choquei!? Fui além, tentei, agrade, convença, persuadiga ou não.

Contudo, consegui escrever isso tudo, porque me sinto parte do processo. Sou uma atriz moderna, pós-moderna que lido com atores igualmente rotulados. Atores que também lidam com dilemas antigos, presentes e futuros. Tensões, rupturas e reconstruções são parte dos sentimentos, constitutores das relações amorosas, sociais e que transgridem a história, o tempo e o espaço ao modo de nosso olhar e resignificação do universo simbólico que estamos inseridas (os). Sofhie e Sr X são parte de mim e se fazem sentidos, compartilhados e externalizados no meu opinar sobre a experiência deles.

Escrito em 11/10/09, digitado em 23/10/09. Referência principal, o e-mail de Sr X, só li uma das 107 cartas da exposição de Sofhie.